Rodrigo Puppi - Psicólogo CRP 08/19702 | Um psicólogo joga Pokémon Go
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Um psicólogo joga Pokémon Go

Tempo estimado de leitura: 30 minutos
Nível de compreensão: fácil

 

De vez em quando surgem situações onde podemos, enquanto profissionais, brincar, jogar e participar saudavelmente de alguma novidade para compreender os fenômenos comportamentais e suas implicações no nosso dia a dia. É uma forma de conhecimento mais direto e enriquecedor do que apenas elaborar teorias sobre o assunto (o que também é válido e deve ser feito em algum momento). Dada a quantidade inesperada de achados que tenho a escrever sobre esse jogo, vou dividir minhas impressões em dois artigos. Nesse aqui faço um registro da experiência pessoal que tive ao jogar Pokémon Go durante dez dias seguidos. Em outro artigo eu examino os fatores comportamentais envolvidos nesse jogo numa análise técnica.

Então senta que lá vem a história…

 

Dia 0

Segunda-feira. Antes mesmo de instalar o jogo no meu celular, ele já virou assunto na sala de professores num intervalo entre períodos de aula. Discutimos um pouco sobre os relatos de alunos que começaram a surgir desde o seu lançamento na semana anterior, do comportamento de profissionais em ambiente de trabalho onde haviam os bichinhos virtuais, questões éticas e filosóficas sobre o uso de tecnologia digital, relações humanas e saúde. Ali tentei definir o Pokémon Go como uma mistura de Tamagotchi, uma febre dos anos 90, com disputas de galos de rinha. Afirmei que não tinha interesse em jogar Pokémon Go.

Parêntesis: se perdeu a referência, veja esse vídeo divertido de crianças descobrindo o Tamagotchi hoje em dia (está em inglês: ative as legendas no próprio youtube).

Dia 1

Terça-feira. Continuo firme na decisão de me manter alheio ao jogo. Porém…

Uma colega enviou uma mensagem perguntando se poderia passar meu contato a uma jornalista da instituição de ensino em que ela trabalha para falar sobre o jogo. Eu tenho experiência jogos, simuladores e com realidade virtual em si, mas absolutamente nada sobre pokémons. Relutante, mas somando esse pedido aos relatos que vieram ao longo do dia por todos os lados e me pegaram desprevenido, decidi experimentar o aplicativo para estuda-lo e aprender mais. De uma hora para a outra a brincadeira pop se tornou material de trabalho.

 

Tarde da noite e sem saber exatamente o que fazer.

Instalei o jogo enquanto terminava normalmente os meus trabalhos no consultório, deixando para me inscrever e configura-lo um pouco antes de sair. O amigo que me deu a carona para casa tentou explicar resumidamente os princípios básicos. Ao observar o jogo rodando, comecei a ficar ligeiramente frustrado com a enorme quantidade de informações que eu recebia pelos ouvidos e pelos olhos na tela: XP, CP, stardust, nível de evolução do treinador, avistamentos, pokéstops, ginásios, altura, peso, power up, evolução do pokémon, doces… um oceano de variáveis! Coloquei o celular o bolso e continuamos conversando sobre a tecnologia, as constatações que ele próprio havia observado, as mudanças culturais muito rápidas e os meus motivos para jogar. Esses últimos aparentemente não foram levados a sério.

Saí de casa para caminhar e testar o jogo, aproveitando a noite agradável e uma visita que estava pendente. Comecei a me guiar pelos símbolos estranhos no mapa (pokéstops e ginásios). O curioso foi observar as marcações das pokéstops: artes urbanas e detalhes decorativos em faixadas que eu nunca havia reparado antes. Alguns deviam estar ali há décadas, mas ainda assim eram estímulos neutros aos meus olhos. Surpresa interessante!

Decidi explorar uma densidade maior de pokéstops próximos a um cemitério. Caminhava com o celular no bolso, checando esporadicamente o trajeto e memorizando as esquinas em que deveria virar, bastante atento ao meu entorno. Percebo que estava ocorrendo um velório na capela funerária, do outro lado da rua. Nova surpresa: jogadores atentos aos seus celulares e aparentemente alheios ao contexto fúnebre logo ao lado. Alguns carros estacionavam por instantes para os motoristas e passageiros manusearem as telas de seus celulares enquanto coletavam os recursos do jogo. Até mesmo algumas pessoas presentes no velório checavam seus jogos com frequência do lado de fora da capela. Curioso! Volto para casa e encerro a noite tendo evoluído rapidamente meu nível do inicial para o nível 3.

Dia 2

Quarta-feira. Abro o jogo ao sair de casa e começo a investigar o funcionamento errático do contador de distância computada nas incubadoras de ovos pokémon. Dois quilômetros não-registrados mais tarde, descubro que o aplicativo exige que a tela esteja ativa e o trajeto seja o mais linear possível. Ao chegar no consultório, largo o celular até a hora de parar para o almoço.

Sigo olhando ao redor enquanto o celular ficava no bolso, vibrando caso cruzasse com algum pokémon selvagem. Observo que muitas pessoas andavam olhando para as telas dos celulares. A quantidade de jogadores de Pokémon Go era bem significativa! Na caminhada para o restaurante capturo alguns monstrinhos. Tiro alguns minutos durante a refeição para aprender em maior profundidade a interface do jogo. Volto para a rua logo depois para dar uma caminhada mais longa e aproveitar o agradável sol de inverno. Novamente alongo o trajeto, mas agora sigo por ruas que não costumava caminhar. Novos pontos interessantes descobertos, como placas comemorativas em praças e largos, estátuas e painéis decorativos. Tudo motivado por encontrar pokémons novos e recarregar os itens especiais nos pokéstops.

Meu nível como jogador evoluiu rapidamente de um dia para o outro e já começava a encontrar monstros diferentes e mais fortes (maiores CP – Pontos de Combate), que também exigem mais esforço para serem capturados. Sento num banco da Praça da Ucrânia e aproveito para jogar enquanto observo o movimento. Ali se encontra um ginásio e um pokéstop aparentemente bastante ativo. Nesse meio tempo troco mensagens mais específicas a respeito do universo pokémon com alguns amigos “consultores”. Vários adultos sentam-se e jogam. Adolescentes caminham e jogam. Um trabalhador se dirige ao colega que apenas descansava com sua bicicleta sob uma árvore e não perdoa: “Tá aí jogando Pokémon, é? Seu folgado!“. Logo em seguida chegam grupos ruidosos de crianças caçando pokémons. Formam um círculo próximos da estátua da praça e parecem disputar batalhas no ginásio virtual localizado na praça real. Sim… as animações na tela do meu celular mostram que está havendo uma disputa pelo controle daquele ginásio. Depois de alguns minutos eles concluem a missão, mudam a bandeira no forte destituído e seguem para suas casas. Deduções possíveis por acompanhar os eventos em tempo real no jogo rodando na palma das minhas mãos.

Recebo uma mensagem de um amigo que organizava uma “caçada noturna” pela cidade. Resolvo me incluir para sentir o clima da brincadeira. No horário combinado eles me apanham de carro e seguimos lentamente para os pokéstops próximos reabastecer as mochilas virtuais. Quatro adultos graduados e independentes, jogando videogame enquanto dirigiam pela cidade quase deserta. Aproveitei para fazer muitas perguntas aos veteranos e aprender truques e dicas de jogo. Noite produtiva, com todos conversando, emprestando carregadores e baterias extras para os celulares, planejando estratégias de jogo e se divertindo de uma forma inusitada. Outros carros pareciam nos seguir, mas apenas percorriam os mesmos pokéstops que nós. Parada estratégica num boteco para recarregar nossas energias com um hambúrguer e carne de onça. Uma saída final para caçar alguns monstrinhos diferentes e a noite termina junto com a carga da bateria do celular. Encerro no nível 5, quase passando para o nível 6. Já está ficando mais difícil de evoluir.

Dia 3

Quinta-feira. Aproveito qualquer trecho de caminhada a pé para entrar no Pokémon Go e guardar no bolso para economizar um pouco da bateria, podendo contabilizar o máximo de quilômetros nas incubadoras de ovos. Pela manhã já percebo claramente os primeiros sinais de que estou sob controle do sistema de pontuação do jogo: num curto período de tempo livre, pensei seriamente em sair à rua para capturar alguns pokémons que o aplicativo indicava nas redondezas, o que me daria bastante XP (pontos de experiência) para evoluir no jogo. Tomo ações de contra-controle e volto a focar no trabalho!

Eis aqui o Eis aqui o “fujão”! O jogo travou e nunca mais cruzei com um desses…

Com a rotina mais intensa, saio capturar alguns bichinhos apenas na caminhada para o almoço. Dessa há menos pessoas na praça e o nível da bateria do meu celular me faz voltar mais cedo para o consultório. Nesse caminho de volta descubro um pokémon mais raro e tento captura-lo. O jogo trava, não consigo concluir a tarefa e me sinto bastante frustrado.

Aproveitei uma janela de tempo longa entre dois atendimentos à tarde para caminhar um pouco em busca de um lanche. Escolhi o caminho mais longo para chegar a um mercado mais distante, obviamente. Descubro ruas diferentes e ambientes muito simpáticos pelo bairro, o que foi muito prazeroso!

Ao encerrar a noite, passo a explorar mais alguns recursos e evoluir pokémons, o que aparentemente é um comportamento bastante valorizado no sistema de pontuação do jogo. Usando essa estratégia, encerro o dia chegando ao nível 9 com bastante sobras, quase atingindo o nível 10. A passagem de nível fica cada vez mais lenta e trabalhosa, o que implicaria em passar mais tempo livre jogando para continuar progredindo.

Dia 4

Sexta-feira. Me aprontei para sair de casa mais cedo que o habitual. Meia hora para a carona. O que fazer com o tempo ocioso? Saio para a rua procurar pokémons. Sem saber exatamente onde se encontrava um pokémon desconhecido, lembro das minhas aulas de geografia e começo a triangular a posição do monstrinho pelo sinal dele no celular enquanto caminhava. Aos poucos vou me aproximando da posição onde o bichinho virtual se localizava, me divertindo com essa exploração “cartográfica”, mas um pouco antes de descobri-lo… o pokémon X sumiu em definitivo. Ainda essa! Além de calcular o ponto geográfico para o qual eu deveria seguir… deveria correr contra o tempo! Todos os outros deslocamentos necessários durante o dia viraram pretexto para serem cumpridos a pé, com o aplicativo rodando no bolso e contabilizando a quilometragem.

Mais uma caçada motorizada à noite. De volta ao pokéstop de duas noites atrás, uso estratégias mais elaboradas para aumentar a pontuação durante o jogo, mas o encontro não parecia tão divertido como na quarta-feira. Não haviam tantas novidades e jogávamos um pouco mais concentrados. Não sei quanto tempo se passava para nós desviarmos os olhos da tela do celular para o lado de fora do carro, mas seguramente girava na casa dos minutos. Do lado de fora, participavam alguns grupos pequenos de pessoas em pé e em outros carros estacionados ao lado. Cansados, demos a missão por concluída. Terminei o dia no nível 11 recém conquistado, mas esse progresso esconde a o fato de ter passado a maior parte do tempo dentro do nível 10. A evolução está mais trabalhosa a cada dia…

Dia 5

Saio mais cedo de casa para o trabalho no sábado. Dessa vez me deslocando de ônibus, aproveitei para sentar durante alguns minutos dentro do terminal, onde havia um pokéstop com lure ativo e um ginásio onde lutas aconteciam a todo tempo. Acionei o lucky egg para dobrar o ganho de XP e aproveitei para travar batalhas e ganhar experiência. Acredito que um casal sentado num banco próximo ao meu seriam meus adversários naquele momento. Não conversavam entre si, mas também não tiravam os olhos da tela do celular. Perdi praticamente todas as batalhas e segui a pé para o consultório, caçando ainda alguns pokémons que apareciam no caminho. Aproveitei os últimos minutos do lucky egg para evoluir alguns pokémons.

Na hora do almoço eu sigo para a Praça da Ucrânia, mesmo decidindo almoçar num restaurante na direção oposta. Ganhei algumas batalhas, perdi outras. Na praça havia a tradicional troca de figurinhas entre colecionadores (figurinhas de verdade!), mas percebi um menino com não mais que oito anos e olhar fixo no celular. Aposto que era ele quem estava me impondo derrotas humilhantes naquela arena de combate. Bateria bastante consumida, assumo a derrota e sigo para o almoço. Um ovo choca no meio do caminho: era um Weedle (pokémon fraco e bastante comum). Que frustrante!

Terminado o trabalho à tarde e com o celular recarregado, saio para encontrar duas colegas num café e colocarmos as conversas e projetos em dia. Planejo o trajeto passando por duas praças: a Praça da Ucrânia, parada obrigatória, e a Praça da Espanha, que tradicionalmente abriga eventos culturais aos sábados. Permaneço pouco tempo na Ucrânia, apenas capturando alguns Pokémons mais valiosos para mim. Descubro no caminho os nomes de alguns largos associados aos pokéstops. Apenas em um deles eu já havia me dado o trabalho de ler a placa fixada no marco de granito. Chegando à Praça da Espanha… centenas de pessoas, como vi poucas vezes! Haviam pais com crianças se divertindo nos brinquedos da pequena cancha de areia, exposição de carros antigos e barraquinhas com objetos antigos à venda, como de costume. Mas também haviam muitas pessoas de todas as idades olhando para os celulares e caminhando pela praça. Uma espiada na tela do meu jogo confirma a agitação frenética também na realidade virtual daquela praça. Não sei se o jogo foi o principal fator no aumento do movimento, principalmente porque fazia uma tarde quente e ensolarada em pleno inverno (ocasião especial em que curitibanos sempre lotam parques e praças). O comércio, aliás, também teve as suas sacadas para aproveitar a onda…

Combinando uma atividade divertida com comida tem poucas chances resultar em algo desagradável.

No fim da noite a bateria do celular estava nos últimos suspiros e o movimento ainda era intenso nas duas praças. Ao chegar na Praça da Ucrânia, meu celular deu seu último suspiro e desligou. Pensando se voltava ao consultório para recarregar o celular, decido voltar direto para casa… sem jogos, sem registrar o dinheiro gasto no aplicativo de controle financeiro, sem ouvir música, sem responder as conversas pendentes no Whatsapp, sem checar Facebook, e-mails e ainda sem culpa nenhuma.

Puxo assunto com a cobradora na estação tubo, perguntando sobre o aumento no movimento da praça e ela responde que notou algo em função do Pokémon Go. Completou ainda: “Vai falar para esse pessoal baixar um livro para ler… ou para sentar e discutir política… nada! Só querem saber do joguinho no celular!” Continuamos a conversa e descubro uma leitora ávida, bem informada, com postura crítica e preocupada com a formação educacional dos filhos. Fico sabendo sobre as aspirações do filho, que “(…) pretende fazer psiquiatria ou psicologia (…) para entender a mente humana. Ou então virar professor de história.” Me despeço e sigo meu caminho refletindo que, indiretamente, esse jogo me permitiu um contato diferente com alguém e mudou a imagem que eu tinha daquela pessoa que trabalhava ali todas as noites. Terminei a noite no nível 13, mas já não dava a mínima para isso. Lembrei como é gostoso ficar sem o celular por algumas horas…

Dia 6

 Filomena mostrando seu lado fotogênico. Um dos monstrinhos (de batom cor-de-rosa) mais peculiares que encontrei. Foto tirada com a “câmera” disponibilizada como acessório dentro do próprio jogo.

Domingo. Dia agradável para se passear no parque, com sol e calor. De fato, o Parque Barigui estava cheio e nas ruas próximas avistei adolescentes jogando com plena objetividade, correndo em busca de pokémons. Também passei por um pai que procurava pokémons junto a sua filha pequena, prestando bastante atenção para descobrirem os locais reais que aquela realidade virtual indicava. Decidi ir a pé até o shopping próximo e alonguei bastante o trajeto durante a volta. De minha parte, acabei caminhando mais de 5 quilômetros que não foram registrados por completo pelo jogo. Algo irritante.

Apesar do contexto favorável e de minha imensa curiosidade, passei a tarde organizando documentos e preparando aulas. Terminei o dia no nível 14 com o auxílio de lucky eggs, incenso (o virtual, que atrai pokémons) e muitas evoluções planejadas durante o dia anterior. Está ficando bastante trabalhoso esse jogo.

Dia 7

Segunda-feira. Uso todos os trajetos a pé para registrar mais quilômetros nas minhas incubadoras virtuais de pokémons. Trago o jogo como um dos exemplos didáticos numa aula sobre metodologia de observação e método científico (nada muito distante do que eu vinha fazendo). No retorno para casa, tarde da noite, encontro com a última evolução do pokémon-beterraba: um Vileplume com um CP bastante alto. Foi de longe o monstro mais trabalhoso para capturar, pois ele escapou de três great pokéballs bem lançadas e não deu tanta importância para as quatro razz berry que entreguei para “conquistar sua confiança”. Parei na rua por uns 5 minutos para finalmente captura-lo. Foi divertido pelo desafio em si. Permaneço no nível 14.

Dia 8

Terça-feira. Registrei uma alta quilometragem nas incubadoras, novamente trocando o trajeto de ônibus por uma caminhada até a reunião de professores no campus do bairro Mercês. Na volta para o consultório, aproveito para me sentar e descansar um pouco na Praça da Ucrânia e disputar algumas batalhas naquele ginásio. A motivação caiu um pouco, já que meus pokémons possuíam um nível bem inferior aos dos donos da praça. Encontro com uma colega na padaria e ela flagrou o jogo na tela do meu celular (esses olhos ágeis e bem treinados de psicólogos…). Explico a minha intenção e me parece ser a primeira pessoa que realmente acreditou que eu estava investigando o jogo por “motivos profissionais”. Afinal de contas, ela também trabalha com crianças…

Durante a volta para casa, já no terminal de ônibus, decido gastar meu tempo de espera disputando o ginásio dali contra os clãs rivais. Consegui diversas vitórias enfrentando pokémons páreos para os meus, mas haviam vários outros jogadores fazendo o mesmo, deixando as partidas bastante dinâmicas. Me diverti durante quinze minutos e segui meu caminho de olho na bateria do celular… a urgência para encontrar tomadas e carregadores disponíveis a todo momento se tornou estressante. Cheguei ao nível 15, concluindo algumas evoluções já em casa. Me questionei seriamente sobre as razões em estar jogando aquilo enquanto fazia um lanche às 23h30 de uma terça-feira.

Dia 9

Quarta-feira. Aproveitei as reflexões do fim da noite anterior e desinstalei outros aplicativos que estava avaliando e me consumiam algum tempo. Entre eles, aplicativos interessantes para exercício de habilidades cognitivas, mas que atualmente utilizava mais pela obrigação dos lembretes diários do que pela avaliação da qualidade do software.

Acesso o jogo durante os momentos de caminhada na rua. Se tornou uma rotina maçante onde eu devia otimizar meus passos e manter todos os ovos sempre contabilizando a distância percorrida. Infelizmente escolhi a hora errada para sair de casa e fui surpreendido pelo início de uma tempestade que guarda-chuva nenhum daria conta. Ensopado e a caminho do consultório, me entretenho ouvindo com atenção as ótimas músicas nos fones de ouvido. Lembrei que estava com o tablet na bolsa e senti uma enorme vontade de ler algum livro nele: essa ideia surgiu ao observar outras pessoas lendo livros dentro do ônibus. Abri o aplicativo e dou de cara com uma página do Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-V) aberta… e que leitura produtiva foi aquela! É ótima a sensação de tempo bem investido!

Na volta para casa quase esqueço de entrar no jogo para contabilizar mais alguns passos para chocar os ovos, mas já não me irritava com isso. Deixo vários pokémons passarem pelo meu caminho, tamanha era o desânimo para captura-los. Depois de um banho de chuva à tarde, o que eu mais buscava era um banho quente antes de descansar tranquilamente. Sem experiências virtuais pelo resto do dia. Noite muito bem dormida e ainda no nível 15. Mas quem se importa com isso?

Dia 10

Quinta-feira. Acessei o jogo apenas em alguns momentos de deslocamentos curtos. Passei em frente aos pokéstops e decidi não retirar o celular do bolso para coletar itens. Não me sinto mais motivado para continuar “dentro” do jogo. Pode ser o tempo chuvoso ou o fato de não ter descoberto nada essencialmente diferente nos últimos dias. Tenho sentido a maior exigência que o jogo me impôs para cumprir as tarefas repetitivas de sempre. Curiosamente, desde que reduzi o tempo de jogo no dia anterior, venho cruzando com pokémons cada vez menos resistentes à captura. Isso me levanta algumas suspeitas sobre a programação do jogo, mas precisaria de mais dados para confirmar a hipótese: o jogo facilita a conquista de elementos gratificantes para estimular o jogador retomar a sua frequência de uso? Saindo do elevador do consultório, por bem ou mal, faço isso:

 Ops… e meu dedo soltou o ícone ali! Tchau Pokémon Go! Você não foi páreo para o clima do inverno curitibano. Chuva, à noite, sob temperatura digna de geladeira… não vale o experimento!

“Dez” é um número redondo bacana para fechar a experiência. Termino no nível 15, com muitos XPs para avançar e bichinhos por evoluir. Não consegui capturar dois dos pokémons que avistei e terei que viver com essa lacuna na minha vida. Ou seja, não fará a menor diferença para mim.

O dia seguinte

Sexta-feira. Sentimentos interessantes e mudanças visíveis sobre o meu comportamento.

Sensação de alívio por não me obrigar a jogar, nem manter o aplicativo aberto contabilizando os quilômetros que caminho. Isso é importante! Se deixar de jogar algo que deveria divertir provoca uma sensação de alívio, é porque o meu comportamento de jogar já não se mantinha mais pelo prazer. Então por que continuei a jogar? As prováveis fontes de controle sobre o meu comportamento eram a evolução dentro do jogo (exercendo controle fraco), a possibilidade de sair novamente com amigos (controle forte), a regra que me coloquei de atingir 14 dias jogando (controle fraco), escrever esse artigo aqui (controle mediano). Acredito que as sensações gostosas associadas à diversão proporcionada pelo jogo foram uma fonte de controle importante até o terceiro ou quarto dia, desaparecendo aos poucos dali em diante. O mesmo aconteceu com a gratificação em aprender sobre o jogo e sobre todo o movimento social em torno dele: à medida que avançava e as descobertas se tornavam mais escassas ou trabalhosas, o interesse diminuiu. O lado social do jogo não foi reforçado há vários dias: sendo essa a fonte de controle mais intensa, as demais não foram suficientes para me manter jogando continuamente. Não fui pego pela onda de nostalgia e não me deixei levar pelas recompensas oferecidas pela jogabilidade do aplicativo.

Percebi que o aplicativo tanto me aborreceu quanto deixou algumas reflexões importantes. Passo pelos mesmos locais onde eu vinha checando o celular para coletar objetos ou pokémons, mas agora atento a detalhes que antes não achava importantes. Me tornei mais consciente dos hábitos que vinha adotando, quase como desligando um “piloto automático”. Descobri lugares novos que passarei a frequentar. Explorar as redondezas é algo que não precisa depender de um jogo de realidade virtual aumentada e pode ser aplicado diretamente à vida real. Esse comportamento já fazia parte de meu repertório, mas estava precisando de um belo reforço que veio pelo jogo. E aquele tempo em que estaria olhando para o celular enquanto passeava, agora é dedicado a olhar para os detalhes arquitetônicos, urbanísticos, naturais. Por outro lado, o mundo virtual foi parcialmente alienante. Olhando para a tela do celular, minha atenção se fechava às pessoas ao redor, ao trânsito, aos eventuais riscos e oportunidades que poderiam surgir. Essa foi uma consequência indesejada, mas também previsível.

Talvez volte a instalar o aplicativo no meu celular, mas somente para o caso de usá-lo como pretexto para fazer um passeio bacana, passar momentos agradáveis com boas companhias, ter conversas enriquecedoras. De qualquer forma, essas atividades podem ser feitas “offline”. Concluí que a melhor parte do Pokémon Go não era joga-lo, mas entrar em contato com pessoas de verdade e com o celular bem guardado no bolso.

 

 

Como referenciar esse artigo em normas ABNT:

PUPPI, Rodrigo Henrique. Um psicólogo joga Pokémon Go. Disponível em: <http://www.rodrigopuppi.com.br/blog/2016/a-tecnologia-comportamental-de-pokemon-go/>. Acesso em: 00 de mês de 0000.

Como referenciar esse artigo em normas APA:

Puppi, R. H. (2016). Um psicólogo joga Pokémon Go. Recuperado de http://www.rodrigopuppi.com.br/blog/2016/a-tecnologia-comportamental-de-pokemon-go